quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Centro
De Irineu a Vargas,
E noto nas faces observadas
Tédio, fome e chagas.
Na minha revolta de Homem,
Com o pavor de quem não entende,
Penso nas harmonias que somem
Enquanto batem os sinos da mente.
Da catedral o choro conturbado
Afugenta os tímidos cristãos
E do corpo do mendigo esfolado
Escorre o sangue em meio às mãos.
Nas ruas da manhã o que mais penso
É na jovem de programa e de intervalo,
Atrás do fugaz tenro senso
E do matrimônio impossível do gargalo.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Fica em pé
É justamente isso que sente.
Hoje bem, amanhã mal.
Hoje é segunda-feira cinza,
Mas na quarta ninguém lembra.
Besteira lutar contra
Ou mesmo chorar.
Fica em pé, fica em pé.
Reserve teu sangue
Para o futuro que pode
Não chegar.
Vai chegar?
A vida, Felipe, seu místico,
Passou sem você perceber.
Com os recalques sonhando.
Por dentro um barulho fatal.
Reza,
Canta,
Santifique tua indolência,
Anúncio do pior plástico.
Barulho sem sentido.
Chega e vai pra onde?
domingo, 26 de dezembro de 2010
Mar da Solidão
E vi o que já havia notado:
Uma capela de futuros sós,
Como quando eu estava parado.
As ondas de choro não cessavam,
A porta de lágrimas não se abria.
O Mar da Solidão estava revolto
Onde azedo coral feria.
As feridas contaminavam a água
E semeavam o escuro incolor.
Negros peixes em nados ocultos
Atacavam o que restava do amor.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Apuração
Do que já morreu.
Na porta,
Um dia nascendo.
Novos símbolos.
O que importa,
Em um gesto,
É a imagem
Dita em dedos
Convertidos em
Dons do esquecido.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Mensagem de Natal
É a presunção da felicidade.
Sob o fardo
Do Natal.
Sob o fardo
Do Carnaval.
A tristeza
A tristeza que carregamos
É a presunção da felicidade.
Quem irá negar?
Em sonhos
Alcançamos
O ideal,
Com ideias
Construímos
Uma ação,
Na teoria
Apanhamos
Até nos tornarmos
Gente.
Sai fora dessa, coração
Sedento de pureza.
A tristeza do mundo
É a presunção da felicidade.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Amor
É para a ciência do juntar.
Rasga as fotos desta festa
Mas dentro quer perdoar.
Àquele que sonha se expressar
Falto os meios para dizer.
Grita: incomoda o caminhar.
Silencia: preso no crer.
Se por ela ao menos passasse
O fim das vias do meu olhar
A falta da justiça a corasse
E coroasse a retorno do amar...
Mas quem sente demais perde.
Quem se joga se encerra.
Fica sem o chão que se mede.
Fica na solidão de quem erra.
Mas se eu pudesse divulgar
O que pela boca se cala,
Já pagaria pela cruel fala
Porque estou a me expressar.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
O humano é a luz do inferno
Não, ele é... pense melhor.
O humano é a luz do inferno.
Pense melhor. Pense.
O que dá pra fazer?
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Inspiração
Que os dedos não podem expressar.
Só que elas se escondem dentro
Da bagunça, do som, da poluição.
Estão lá dentro
E não querem se mostrar.
O encanto desta inspiração
Colore os meus longos dias.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Alternativa
Ganhando, como um pássaro a voar,
Um olhar alternado, os lagos pútridos
Com suas gangues de dores doces.
Parecem menos cavalheiros.
Menos sociáveis e menos apresentáveis.
Alunos da furtiva terceira série
Para quem nada mais importa.
Você entra em águas de gasolina
E nada a nervosa carga elétrica
Em um bote. O machucado na pele
Pelo passado de queimaduras.
A mesma idade e na mesma época.
Fugindo das mentiras, suaves mentiras.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Dentro do verão
Até a memória se torna história.
Qualquer árvore parece respirar
O que com a solidão angustiante
Ela atravessa a planície.
Suas folhas são contra o calor.
O dia nunca foi tão quente
E o quente nunca foi tão dia.
Jamais antes um dia
Evaporou, evaporou...
Anos atrás, uma pérola
Brilhava na raiz de uma árvore.
O sol agora apareceu
Como uma faísca na depressão.
A faísca está imersa no calor.
domingo, 12 de dezembro de 2010
O machucado
Que pode comprometer. Não estarei
Satisfeito. As geleiras que matei
Me arrastam e me afundam em segredo.
Para quem, como eu, não foge ao jogo
Arriscado e tão estranho quanto a vida
E os parentes ternos da cinza e do gozo,
Cresça. Não estarei satisfeito. Finda
Não foi minha imagem. A minha alma
Aplicou-se às sombrias silhuetas
Centrais, avessas a vívidas piruetas.
Valentia quero ter. Valentia calma.
Não se tem. Está sempre do outro lado.
A tristeza de um homem machucado.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Batalha qualquer
homens soldados
caladas rumores roubados.
Uma mulher chora ali.
Um animal cavalga aqui.
Um general ruge lá.
Os tanques gritam cá.
Eita, quanta ignorância, gente.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Informação
Da integração à realidade.
Questão salarial pela metade -
O que se espera dos enquadrados.
Cuidado em garantir a verdade.
Assumiram um ar de arrogância.
Criaram um caráter de maldade.
Por isso atuo como em vacância.
A gente tem quem mente.
O mercado aquece pela tragédia.
Esse ano fugimos da crise.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
É tão sincera a frieza do chão
Da minha casa, quando se apanha,
Em que todo o corpo ganha
As dores dos que recebem um não.
Ela assim segue a louvar
O bondoso orgulho que lhe mascara,
Qual um anjo com ferida que não sara
Para uma prova aos íntimos dar.
Tão doce se mostra a quem toca
Que a pele se refuta a entregar
O que sente ao tato do olhar.
Quando fala, a sua boca mostra
Um hálito suave, passado de amar,
Que no íntimo refuta o sabor de odiar.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Por estrelas e canetas
Caindo enquanto passam por estrelas e canetas.
Poças de prazer e mares de risos me carregam
E me ondulam em suas variações.
Tudo permanece como está.
domingo, 28 de novembro de 2010
O alemão está
Olá, paz alemã - tua ampla área está livre;
Uma mão generosa - um sorriso sincero - um gesto de carinho.
(Deixa o tempo se cuidar e revelar as barreiras do destino;
Nosso futuro, a aceitação do complexo geográfico do norte);
Hoje, estendemos os braços sobre tua cabeça.
Está livre de censuras e controles. Está tudo bem.
A verdadeira lição está no segredo que se revela
(Brilhando nas cruzes das entradas e becos)
Nas alturas de uma humanidade que ainda vive.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Girando pelo ar
Faria com que tudo girasse por você.
E se eu tivesse que pensar por anos
Faria com que o crer viesse a ter.
Bem, um cachorro se esconde no lixo,
Um gato em uma de suas nove vidas,
Um pobre em seus milhões de ideais,
Um milionário em seus restos carnais.
Bem, ninguém tem nada
Para almejar e procurar.
Apenas vasculho no futuro
Alguém que gire pelo ar.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Rainha dos fios morenos
Deste lado você não passa.
Minha filha, tenta enxergar,
Rainha dos fios morenos
No reino que exalta sua vitalidade,
Que há ainda o que crescer,
Sob castelos de déspotas,
Tiranos e usurpadores.
Antes que busque um golpe,
Com os troncos e membros,
Tudo estará findo e esquecido
Nas trevas sinuosas
Como o pó das memórias brandas.
O certo e o errado, duas verdades
Que caminham em suas mentiras
Entre as desumanas frescas brisas.
Rainha dos fios morenos,
Se dissipe com o assobio do vento
Chorando as memórias de ti e de mim.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Canção da fuga
Enquanto a sombra ainda não surgiu
Como um bandido barbado e bárbaro;
Sigamos por estes lugares ermos,
Através de hotéis vagabundos
De bairros tristemente ruidosos,
Ao lado de bares onde a névoa
Às garrafas se entrelaça:
Caminhos tediosos que não terminam,
Em que a doçura das curvas
São para atrair a uma dúvida...
Não sabe qual?
Sigamos então ao fim da estrada.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Para Yoko Ono (minha cadela)
Penso nela e em nela me completo.
Corre pelos gelados ladrilhos do quintal.
Penso nela, murmuro os abraços e lembro dos afagos.
Amanhã estará em meus braços a me cheirar
E eu correrei com ela nos braços pelos ladrilhos.
Eu já a vejo amanhã cheirando os meus braços
E quando estiver nos ladrilhos com as pernas pro ar
Isso será apenas a alegre verdade de amar.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Outro dia
Vale a pena a repetição?
A repetição vale a pena?
As ruas, os ônibus, os passageiros,
As telas, os papéis, as tintas,
Os perfumes femininos
- Quantas vezes ainda mais? -
O que penso não dá para dizer.
Se uma lanterna olhar pra mim
E realçar os meus nervos
Saberá que vale a pena
A repetição?
Se alguém puser seu travesseiro
Atrás da minha cabeça
A janela irá se abrir?
É absolutamente o cotidiano
Que dorme no colo do absoluto.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Viver sempre
Solitária. Viver já...
É preciso argumentar?
Joga-se frases sobre a sepultura.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Espera
O ontem em ansiedade pelo que é só um outro dia?
As horas a chegar - voaram para Penny Lane?
O que há de mais triste e vazio que Eleanor Rigby!
Vênus e Marte emaranhados no espírito;
O tolo na colina vive e deixa morrer os sentidos!
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Feira de Rio das Ostras
Em um uma estranha feira de promessas
Por entre as ruas de uma praça destronada.
Lá, as roupas, os alimentos, os porcos e os pombos
Ficam todos a repousar sua descolorida carne.
Suas barracas, tendas e balcões
(balcões que invadem e machucam a passagem)
Desagradam aos olhos do judeu mercador.
A manada pelas luzes pútridas glorificada
Rindo sob os cristais, barulhenta
e inquieta, inimiga dos jardins da paz.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Há meses
Em dores e odores algumas vezes,
Como sabes, morei por lá,
Junto com quem me fazia amar;
E nada particular alterava
O universal que criava o adorar.
Imaturidade, dependência, impotência,
Em dores e odores algumas vezes.
Mas o sonho era mais que um sonho;
Pois na realidade ela me fazia sonhar
Um sonho que o delírio envaidecido
Atingia o céu e fazia chorar.
Foi o que há muitos e muitos meses,
Em dores e oderes algumas vezes
Um raio partiu do azul, clareando
A sombra do que eu dizia adorar;
E a sua fidalga verdade surgiu,
De longe a me alertar,
Para a sepultura das mentiras
Das dores e odores de amar.
domingo, 14 de novembro de 2010
Vale do Paraíba
E, deixando você em sua glória,
Apesar de tremenda a sua escória -
És a certa, a que busca
Fazer dos meus dias uma luta;
Pode ser que a esperança manha
Em um dia, ou em uma semana,
Em um passado, este que chorou
Será mesmo que já passou?
Tudo que sentimos e vemos
É apenas um vale do que cremos.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Caoticista
À minha estrada hei de fugir
E separado de mim, barulhento grego
Cairei na luz que faz ruir;
Dar-te-ei na alma alva e calva
Dores mais quentes que o sol
E qual cão em torpe formol
Te machucarei; aquele que salva.
Ao adormecer a noite certeira,
O meu espaço sentirás repleto,
E em nada o calor fará o inseto.
Como nós pelas fraquezas,
Em tua morte e pelejas,
Quero sumir pela coragem.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Cores do clarear
Chama-se Adolfo da Costa; tem 47 anos, ou aproximadamente isso. Nasceu em Cascadura, ou em algum lugar por ali. É bom administrador e boa alma; todos os alunos gostam dele. Seu Adolfo é o nome das ruas; e dizer das ruas e ser famoso é o mesmo para quem é carioca. “Quem dirige a escola é Seu Adolfo”. Era o tempero ideal para a imaginação popular e romanesca das redondezas. Seu Adolfo rege o circo! Quem não conhecia o Seu Adolfo, com o seu ar sério, sobrancelhas franzidas, lábios deprimidos e andar desarrumado? Tudo era potencializado na escola; então sua alma sobrevoava por toda a matéria e gestos do homem; as sobrancelhas enrugavam-se, o andar quebrava-se; era ele. A escola era dele. Se fosse de outro alguém todos sabiam, porém, que quem ama faz o bem.
Fim das aulas; é como se tivesse fim uma luz espiritual e deixasse as crianças com um clarão em suas peles. Eis então aquele que desce ao pátio, apoiado por sua curvada postura; vai ao encontro dos pais beijar suas mãos e encontrar seu lugar embaixo das árvores. Tudo de maneira original e expressiva. Conversa, sai, caminha pela Avenida Geremário Dantas, onde se encontra com um velho negro, Seu João, que é seu verdadeiro confidente, e que neste momento troca informações com alguma mãe.
Lá vem Seu Adolfo – diz a mãe.
É... A gente se fala, Glória, até amanhã.
Seu João deu um salto, caminhou em direção a Seu Adolfo e esperou algumas palavras, que daí a pouco estariam confortavelmente instaladas dentre a tarde amargamente nublada. A escola não era boa naturalmente; nem competente. Não tinha o menor vestígio de profissionalismo, eficiência ou caráter, nem professores que surpreendessem, nem bons alunos, nem mesas e cadeiras seguras. Escola sombria e pesada. O mais feliz era um quadro negro, onde o Seu Adolfo escrevia algumas condolências, pensando. Sob a mesa, deitados, vários trabalhos entregues; todos medíocres.
Ah! se Seu Adolfo pudesse seria um grande pintor. Pelo que dizem há dois tipos de talentos, os das letras e os que não as possuem. Os primeiros verbalizam-se; os outros são um embate cruel e sanguíneo entre a consciência interior e a ausência de um símbolo para a humanidade. Adolfo era desses aí. Possuía o dom para as artes plásticas; trazia consigo as cores e as nuances, um universo de harmonias brilhantes e criativas, que não tinha a ousadia de colocar em um papel ou tela. Esta era a causa da tristeza de Seu Adolfo. Claro que o povo não concordava com ela; uns afirmavam isso, outros aquilo: frescura, falta de mulher, dificuldades financeiras; mas eis a verdade: - o motivo da melancolia de Seu Adolfo é não poder pintar, não ter como se expressar. Longe de deixar de brincar com telas e dialogar com seus pincéis, durante dias; mas tudo era inconstante, sem padrão ou beleza. Ultimamente tinha até receio de dar as caras na rua, e desistia de tudo.
E, porém, se tivesse a oportunidade, finalizaria ao menos um quadro, um expressionista, começado dois dias depois de ter iniciado um namoro, em 1996. A moça, que tinha então 38 anos, e foi embora com 40, era simpática, pouquinho, mas muito doce, e fazia por ele o que poucos faziam. Dois dias depois de ter começado o namoro, Seu Adolfo sentiu que tinha um motivo para a arte. Imaginou então o quadro expressionista, e quis pintá-lo; mas a arte não se materializava. Como um cão que acabava de ser adotado, e tenta transpor as grades de sua nova prisão, pelos lados, abaixo, impaciente, aterrorizado, assim era a arte de nosso pintor, presa nele para a eternidade, sem uma luz em algum canto da escuridão. Algumas cores chegavam a fazer sentido; ele pintou-as; apenas um rabisco em uma porção da tela. Tentou mais uma vez no dia seguinte, algumas semanas depois, diversas vezes durante o namoro. Após a morte da moça, ele lembrou das cores que faziam sentido e ficou ainda mais arrasado por não ter conseguido colocar no branco a felicidade agora ausente.
Seu João – disse ele ao ver o amigo - , sinto-me mal.
- Você não tem dormido direito, rapaz...
Não; já me sinto assim há uma semana. Compra um remédio pra mim...
Aguentou a dor durante o dia; e durante a noite suportou bem, com exceção da criada, que mal conseguia descansar. O povo, apenas soube do desconforto, não quis ouvir explicações; quem tinha pernas e bom coração foi visitá-lo em sua casa. Diziam-lhe que era só um mal-estar passageiro, que eram pontadas do tempo; um acrescentava delicadamente que aquilo não era coisa de homem, até uma mancha na reputação feroz do enfermo – outro que eram problemas não resolvidos da infância. Seu Adolfo dava atenção, mas sabia, ele mesmo, que era o fim.
“Tudo acabou”, refletia.
Certa noite, quatro dias após o início das férias escolares, o amigo achou-o realmente deplorável; e foi isso o que realmente sentia atrás das palavras mentirosas:
Já vi muito disso. Não é nada. Precisa parar com essas pinturas ...
Em pinturas! Foi esta palavra do amigo que deu ao diretor a inspiração. Assim que ficou só, solitário, encaminhou-se à tela que guardava desde 1996 com os rabiscos de cores que faziam sentido. Olhou bem para as pinceladas geradas com tanto esforço, mas não concluídas. Teve, então, uma ideia genial: - finalizar agora a pintura, de qualquer maneira; tinha que acontecer, precisava deixar a sua marca no planeta.
Quem sabe o amanhã? Em 2013, talvez achem isto, e falem de um tal Seu Adolfo...
O início do rabisco lembrava um sol; este sol, tão amarelo e simples no seu canto, era a parte definitivamente instalada. Seu Adolfo quis que levassem a tela para o quintal, que dava para um verde sepulcral: precisava de intensidade. Entre as árvores viu um casal de aves, pendurados, com os bicos entrelaçados por cima dos galhos, e as asas libertas. Seu Adolfo chorou de alegria.
Aqueles amam – disse -, eu não. Ao menos pintarei este quadro que eles poderão apreciar...
Ficou em frente à tela; passou a pintar e chegou onde estava o sol ...
Sol, sol, sol.... Não conseguia seguir adiante. E, no entanto, sabia pintar como ninguém.
Amarelo, branco ... azul, verde ... vermelho, cinza...
Nada! Nenhuma arte. Não queria algo genial, mas algum tipo de peça, que lhe fosse original e pessoal. Voltava ao sol, repetia as cores, tentava recordar de um detalhe da felicidade ausente, lembrava-se da moça, daqueles meses. Para manter as nuvens, lançava os olhos às aves penduradas em galhos. Estes se amavam ali, com os bicos entrelaçados e as asas libertas; só que agora eles tinham companhia, não estavam mais solitários: Seu Adolfo, cansado da malemolência e da nulidade, tornava à tela; mas a vista das aves não se transformava em inspiração. As cores seguintes não eram criadas.
Sol... sol... sol...
Sem paciência, largou a tela, pegou o pincel e quebrou-o. Nesse instante, a fêmea, presa nos carinhos do amado, passou a voar livremente, suavemente, como algo raramente visto nem presenciado, na qual o sol brilhava lindamente por trás, justamente a imagem que Seu Adolfo procurara por anos. O diretor viu-a com melancolia, coçou a nuca e decidiu pôr fim à claridade.
domingo, 17 de outubro de 2010
Balada do Tédio
É provocante, mesmo que calma;
Ela se move mesmo que não fale.
A agitação pede que se cale.
Nunca pensei neste pântano,
Tudo tão escuro, longe do santo,
Me tornei mais um prisioneiro.
Eu durmo e o mundo segue seu roteiro.
sábado, 16 de outubro de 2010
Tudo ou nada
Todo piolho adora carecas.
Bolsas são inúteis.
Sacolas se parecem com bolsas.
Os caranguejos fazem barulho.
Gente barulhenta é inconveniente.
Pererecas não escrevem poemas.
Algumas se molham para celebrar o amor.
Alguns muros são intransponíveis.
Tudo pode ser intransponível.
Todos os rouxinóis perdem os momentos certos.
As oportunidades estão nos momentos errados.
Nenhum osso pode suar durante o amor.
Um caranguejo cruza suas garras.
Pessoas maduras evitam o isolamento.
Nenhum caseiro pode ser feliz.
Todo egoísta é um humanista.
Só os egoístas guardam seus sentimentos.
Nenhum trabalhador gosta de música.
Nenhum operário é artista.
Todas as aves não bastam para mim.
Todo o resto basta.
domingo, 10 de outubro de 2010
O sol
Porque já se levanta o sol totalitário.
Se levanta e sobe. O sol é uma entidade
Que o futuro sem dúvidas roubou.
Aquele que o vê subir ainda espera
O momento em que o azar inóspito
Um animal lhe apresentou neófito
E o detalhe fascinante da esfera.
Este sol que descansa embaixo do gelo
Entristecerá nuns edifícios futuros
Os brancos morangos de murros
Que teimam em ceder. A seca
Noite leva o canto, o canto da presa
Parental que se rebela contra os burros.
sábado, 9 de outubro de 2010
O último a chorar
És tudo menos este tufão
Eu te penso e tu me pensas
Quem por último é que chora?
O último a chorar roda.
Roda e pensa para sempre
Como meio de pensar
Para quando às rosas mente
O vazio do olfato a anular
Nada é o olfato a mostrar.
E o pensar, ao estar pensando
Quando pensa, segue
E estamos os dois respirando
O que se promete
Isto acabou ou irá recomeçar?